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Uso de GLP-1 no Brasil: Estamos Tratando as Pessoas Erradas?


O uso de GLP-1 no Brasil está crescendo em velocidade histórica. Mas existe um paradoxo desconfortável emergindo por trás dessa expansão: os medicamentos parecem estar chegando mais rapidamente às populações com maior poder aquisitivo — e não necessariamente às populações com maior necessidade clínica.

Os agonistas de GLP-1 representam uma das maiores transformações recentes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.


Estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram perdas de peso superiores a 15% com semaglutida e acima de 20% com tirzepatida, números que redefiniram o potencial terapêutico da medicina metabólica moderna (Wilding et al., 2021; Jastreboff et al., 2022).

Além disso, pesquisas recentes publicadas no JAMA apontam redução importante de risco cardiovascular, hospitalizações por insuficiência cardíaca e mortalidade em pacientes cardiometabólicos utilizando essas terapias.


A ciência funcionou.


O problema agora é outro:como estamos usando essa inovação.



O uso de GLP-1 no Brasil acompanha renda — não obesidade


Dados recentes sobre o uso de GLP-1 no Brasil revelaram um fenômeno particularmente relevante do ponto de vista estratégico e epidemiológico.

O consumo desses medicamentos apresentou correlação positiva com PIB per capita (ρ=0.50; p=0.008), mas não apresentou associação significativa com prevalência de obesidade (ρ=-0.16; p=0.415).

Na prática, isso significa que os medicamentos estão sendo mais consumidos em regiões economicamente mais favorecidas — e não nas regiões com maior carga de obesidade.


Esse dado muda completamente a interpretação do mercado.


Porque ele sugere que parte importante da expansão atual pode não estar relacionada ao tratamento da obesidade clínica severa, mas sim ao uso estético, episódico e orientado por pequenos ajustes corporais. Isso ajuda a explicar outro dado extremamente relevante.

Análises do setor corporativo mostraram que 94,8% dos usuários compraram apenas uma única caneta de GLP-1 ao longo do ano. Uma única caneta normalmente cobre apenas quatro semanas de tratamento. Isso é incompatível com o manejo crônico da obesidade.

Uso episódico gera baixo ROI clínico


Obesidade é uma doença crônica. Ela não é resolvida em quatro semanas.

Estudos de seguimento do programa STEP demonstraram que pacientes podem recuperar aproximadamente dois terços do peso perdido após interrupção do tratamento em apenas 12 meses.

Isso significa que o uso episódico tende a produzir:

  • baixa sustentabilidade metabólica,

  • elevado reganho de peso,

  • redução do impacto populacional,

  • e aumento de desperdício terapêutico.


Do ponto de vista de ROI em saúde, essa discussão é central.

Porque empresas, operadoras e sistemas de saúde começam a absorver custos farmacológicos extremamente elevados sem necessariamente obter desfechos clínicos sustentáveis.

Hoje, os GLP-1 já representam até 15% dos gastos medicamentosos em saúde corporativa no Brasil.

Mas existe uma pergunta estratégica que ainda permanece sem resposta:

estamos financiando tratamento metabólico sustentável…ou apenas consumo farmacológico de curto prazo?


O custo invisível do uso inadequado de GLP-1

Outro ponto frequentemente negligenciado é que GLP-1 não reduz apenas gordura corporal.

Meta-análises publicadas no International Journal of Obesity e em periódicos ligados ao grupo Nature mostram incidência relevante de:

  • efeitos gastrointestinais,

  • perda de massa magra,

  • pancreatite,

  • e outras complicações metabólicas associadas ao uso dessas terapias.

Em pacientes com obesidade clínica severa, os benefícios frequentemente superam esses riscos Mas em indivíduos buscando perder apenas alguns quilos para refinamento estético? A relação risco-benefício muda completamente. Esse talvez seja um dos principais desafios regulatórios e estratégicos dos próximos anos.

O verdadeiro desafio do GLP-1 não é a molécula

O futuro do uso de GLP-1 no Brasil não será definido apenas pela eficácia clínica dos medicamentos.

Será definido pela capacidade do sistema de saúde em responder perguntas muito mais difíceis:

  • quem realmente deve usar;

  • por quanto tempo;

  • com qual acompanhamento;

  • e com qual objetivo clínico.

Hoje, cerca de 31% da população adulta brasileira vive com obesidade.

Ainda assim, milhões de pacientes continuam sem acesso adequado ao tratamento contínuo.

Ao mesmo tempo, o mercado cresce rapidamente impulsionado por consumo estético, redes sociais e uso episódico.

Esse talvez seja o maior paradoxo da medicina metabólica moderna:

temos uma das terapias mais poderosas da história…mas ainda estamos aprendendo a usá-la da forma correta.


Referências Científicas

  • Wilding JPH et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. NEJM, 2021.

  • Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. NEJM, 2022.

  • Krüger N et al. Semaglutide and Tirzepatide in Patients With Heart Failure. JAMA, 2025.

  • Hurtado RL et al. GLP-1 Receptor Agonists in Brazil: Landscape of Consumption, Safety and Regulation. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026.

  • Diretriz Brasileira Baseada em Evidências para Manejo da Obesidade e Prevenção Cardiovascular, 2025.


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